quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Zombie de Ouro 2017


"And then one day you find ten years have got behind you / No one told you when to run, you missed the starting gun..."

E realmente já se passaram dez anos desde aquele insano ZdO 2007. Como foi que isto aconteceu? Lembro até das incessantes rodadas de combustível - marca Cafuso, forte e com muito açúcar. É realmente triste ver dez anos se desfazendo diante dos olhos como se fossem dez minutos, mas pior ainda é ver nossos heróis caindo como moscas a cada ano. E só vai piorar. Os próximos 10 anos serão terríveis neste sentido.

Mas isso me faz pensar... em 2018 o BZ não só completa improváveis 15 outonos, como já ultrapassou essa marca desde o ano passado, se contar a época em que remava na canoa furada do Blogger Brasil. Se é legal, não sei. Da geração que começou comigo, ficou quase ninguém. Todos migraram de mala e cuia para alguma terra prometida. Da minha parte, hobby e velhos hábitos me manterão aqui por mais algum tempo.

O Zombie de Ouro 2017 é provavelmente a edição mais sucinta de todas, por um motivo muito simples e correlacionado com essas divagações: em termos de cultura pop, passei mais tempo nas décadas de 1960, 1970 e 1980 do que neste século, fácil. Realmente me interessei por pouco ou nada do que foi oferecido no ano que passou, seja aqui dentro ou lá fora. O pouco do hype que experimentei me fez dar meia volta com um gosto amargo na boca. Não é mais pra mim. I'm too old for this (new) shit.

Saudades de quando "Time" era só uma das músicas da Hollywood.

Mas vamo-que-vamo!


  





Pensei que já havia zerado os indie-alternativos nesta vida, mas foi uma grata surpresa este Visions of a Life, 2º disco do Wolf Alice. Com desenvoltura notável, o quarteto londrino passeia pelo shoegazer e pelo noise barulhentos e sujões até mergulhar em etéreas viagens synth e dream pop. Tudo pontuado pela voz docinha - e por vezes brabona - da alice-girl Ellie Rowsell. Um perfeito Sonic & Mazzy Chain. E dizem que o debut é melhor ainda.



Só a Relapse mesmo. É raro uma banda com fixação em Lemmy & seus Motörheads não afundar no chupim dos mais redundantes. A grande sacada do Tau Cross foi fundir essa referência com outra tão abrasiva quanto: o pós-punk casca-grossa do Killing Joke. Pode até soar pretensioso, mas basta alguns segundos de qualquer som deste Pillar of Fire pra ver o esporro comandado pelo baixista e roucalista Rob "The Baron" Miller, do Amebix, ao lado do batera Michel Langevin - o Away do Voivod e também ilustrador daquelas capas insanas que eles têm. A cereja, claro é a voz de Miller, que lembra uma cria bastarda e horrenda de Mr. Kilmister com o loucão Jaz Coleman, do KJ. De fato, parece algo que fugiu do tanque de isolamento do filme Altered States, do Ken Russell. Legal demais.



O título About Time é de uma ironia perfeita, visto que os suecos do Horisont seguem lançando alguns dos melhores discos setentistas do século 21. Trafegando entre o hard blues do Purple, guitarras à Thin Lizzy e até o Rush fase John Rutsey, chega a ser um pecado não ouvir essa maravilha num bolachão. Quase dá pra escutar o chiado da agulha deslizando nos sulcos de vinil antes de cada música. E que música. De uma época que definitivamente não foi o ano passado.



Depois de um sumiço de 17 anos, a volta mais improvável entre as bandas mais subestimadas do planeta: o Galactic Cowboys! Yippee ki-yay, motherfucker! Long Way Back to the Moon reapresenta o grupo texano em inacreditável grande forma, lembrando bem da época em que fundiam os neurônios dos críticos e da legião de fãs (eu e mais uns dois). É pop? É rock? É progressivo? É hard? É thrash? Não é nada disso. E é tudo isso. Ao mesmo tempo. Ainda. Sensacional.



Confesso que nunca fui muito com os córneos do metalcore - estilo fake news total, em que é comum um grupo soar como um leão enfurecido à 1ª ouvida e virar rapidamente um gatinho siamês nas audições seguintes... mas não antes de você ter anunciado ao mundo que acabou de descobrir a banda mais pesada da história humana. Felizmente não foi o que aconteceu com o Code Orange, ainda. O combo da Pennsylvania tem lá um ou dois momentos pra descansar o sensorial, mas no geral é uma aberração de ódio e agressividade. Forever é um batidão violento de hardcore, thrash, noise e industrial produzido pelo Kurt Ballou, do Converge - outra instituição do metalcore puto da cara que também lançou disco em 2017, mas não tão resoluto, desgracento e carne de pescoço quanto este.



Post Self dá sequência à ressurreição do Godflesh após o lindo apocalipse de A World Lit Only by Fire, de 2014. A expectativa (minha) batia na exosfera. Desnecessário: Justin Broadrick e G.C. Green são a alma do monstro e mantiveram intacta sua natureza imparável e irremovível. A novidade é que a dupla trabalhou mais a relação de suas personalidades metal e eletrônica sem abrir mão de mexidão udigrúdi pra dar a liga. E dá-lhe trips shoegazer, drone, hip hop experimental e outras pirações em meio a um pesadelo industrial que só posso comparar a um compactador de solo em forma de música.



Rincon Sapiência já está na pista há pelo menos 17 anos, mas só agora chega ao seu excepcional álbum de estreia, Galanga Livre. Toda a bagagem acumulada em bandas, singles e mixtapes teve um reflexo bem perceptível no álbum - Sapiência é um dos melhores rimadores da atualidade e só a faixa de abertura, narrando a saga de um quilombola cheio de sangue nos zóio, já merecia uma adaptação pro cinema. Igualmente fascinante é a autoconsciência do rapper paulistano, que usa e abusa do rock, melô, pancadão e o que for preciso para conferir um aspecto mais orgânico ao seu ritmo. E à sua poesia. Discaço.




The Horrors é uma daquelas bandas que nunca entendi muito bem. Incensada por fãs e críticos hip e com uma aura de playboys cult que me lembrava o auê em torno do Arcade Fire anos atrás (e hoje, cadê?). O som, meh, legal, mas se é pra ser estranho e atmosférico, por que não partir logo pro nargilé completo? Goodspeed You! Black Emperor, Mogwai, Tortoise. Ou então uns krautrock da hora, mano. Mas com V foi diferente. Esse bateu. Talvez pela produção coesa como chumbo, talvez pelo show de cores dos arranjos, talvez pelas influências bem dosadas de industrial, sei lá. Só sei que no momento meu coração derrete pelo Fab Five. Tudo rodando direitinho e com troféu imaginário entregue, lá vou eu atrás dos álbuns anteriores pra (re)ver o que perdi. E no atual cenário de mil coisas pra ler, ver e ouvir... The Horrors... The Horrors...




Até que o Grammy Latino acerta de vez em quando: o rapper porto-riquenho Residente empilhou indicações com seu debut homônimo. Totalmente merecido. Residente - codinome de René Juan Pérez Joglar, segundo o Wikipedia - confere ao rap enquanto gênero uma visão macro de mundo. Uau. É o mínimo que se pode dizer de uma jornada que sai da latinidad, atravessa paisagens da mitologia chinesa e do mais puro chanson francês até chafurdar nos desertos do Níger - e olha o Bombino ali, esmerilhando sua guitarra rock-tuareg na faixa "La Sombra". Tudo isso em pouco menos de uma hora. Uma hora que me deixou maravilhado com o que ainda tinha/tenho que assimilar.




Curto a música de Beck desde que despontou no mainstream. Ainda ouço "Loser" com o mesmo entusiasmo do dia 1. Admiro demais seu arrojo na categoria one-multi-instrumentista-produtor-band - a mesma que botou Trent Reznor contra Puff Daddy no saudoso Celebrity Deathmatch. Mas algo aconteceu com esse menino de 50 anos lá pelos idos de 2014, quando pariu Morning Phase, um dos discos mais deprê, dor-de-cotovelo e apagados que já ouvi nesta vida. Perto daquelas músicas de corno terminal, "Something in the Way", do Nirvana, parece marcinha de carnaval. Pois bem, nosso garoto parece ter encontrado uma nova rapariga para lhe fazer aquele gostoso cafuné no cangote: o novo Colors é alegre, alto-astral, cativante e cheio daqueles detalhezinhos arranjísticos que fizeram a fama desse talentoso ratinho de estúdio. Finalmente acenderam o Beck!




Adorei o artigo do Decibel Magazine relacionando o insucesso comercial do Warrior Soul com o fim da era hard rock dos anos 80 - com a banda sendo colocada erroneamente no mesmo saco pela percepção midiática baseado nas longas madeixas do vocal Kory Clarke! - e o então emergente (e já poderoso) Rage Against the Machine assumindo a boina do "rock de protesto" que deveria ser deles. É um barato. Principalmente porque faz sentido numa semiótica caolha e perneta, do jeitinho que o nosso mundo funciona. Não teve Lars Ulrich elogiando que fizesse a banda decolar, mas ao menos é legal ver que Clarke & cia desencanaram disso há tempos. Back on the Lash parece abraçar o gueto hard em que os colocaram: é raçudo, divertido, ensolarado e deliciosamente datado. E no momento é disso mesmo que precisamos. Pra ouvir guiando. E no talo.




Machine Messiah foi o 1º grande álbum que ouvi em 2017. E meio que mais um divisor de águas entre o Sepultura atual e os fãs saudosos do antigo. Se a banda sempre evitou repetir o mesmo álbum, aqui se superou. Tudo soa tão diferente do que já fizeram antes que provavelmente foi a pá de cal pra muita gente em relação ao grupo. É certo que a liderança de Andreas Kisser nunca esteve tão evidente antes - faixas como a supreendente instrumental "Iceberg Dances" só pode ter saído daquelas trocentas horas de prática diárias. E assim caminha o nosso maior grupo de rock em todos os tempos: ora lentamente, ora a passos largos; ora Sepultura, ora Andreas Kisser.




Charles Edward Anderson Berry, o Chuck Berry, dispensa apresentações (espero). Antes de deixar o plano terrestre no início de 2017, ele já havia deixado no forno este bom Chuck, seu primeiro disco em quarenta (!) anos. Não é a reinvenção da roda que ele mesmo inventou, apenas uns blues e boogies saborosos que se habituou em enfiar entre um rock and roll faiscante e outro. O clima é de celebração. A filharada está lá também, se divertindo ao lado da The Blueberry Hill Band. Tom Morello toca guitarra na música "Big Boys". E tem a sequência do hino "Johnny B. Goode" - claro, "Lady B. Goode". Duck walk, riffs e sabedoria - essa poderia ser a fórmula química da diversão. E Mr. Berry o seu louco cientista-chefe. Vida longa ao Rei.



Menções honrosas!
War Moans, Mutoid Man
Hiss Spun, Chelsea Wolfe
Luciferian Towers, Godspeed You! Black Emperor
Terra Selvagem (Wind River, dir. Taylor Sheridan)
Kid Kruschev (EP), Sleigh Bells
Emperor of Sand, Mastodon
The Orville S1 (Fox)
Native Invader, Tori Amos
The Exorcist S2 (Fox)
A Place Where There's No More Pain, Life of Agony

E aquele expediente que você já conhece: dicas, concordâncias e discordâncias na ouvidoria aí embaixo. Ou depois.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Sede de Vampirella

E no Plantão Especial de Sábado 13: a Vampirella do mestre Rodolfo "Rudy" D. Nebres!


Quando fiz um merecido tributo ao quadrinhista, já havia atentado para a vasta produção do pequeno gigante das Filipinas. Mas foi num dos divertidos (e viajantes) papos com o VAM! que percebi sua proficiência nas aventuras da vampira do espaço sideral mais adorada da cultura B. E com uma qualidade digna dos melhores trabalhos do artista - o que não é pouco.

Pra quem é fã de quadrinhos de terror dos anos 60 e 70, só uma palavra: essencial.

Tecnicamente, não é a primeira vez que menciono a longeva, libidinosa e lasciva Vampirella por aqui. Mas a bombshell sanguessuga certamente merecia uma ocasião especial só pra ela.

“Vampirella – She's so sexy!”
(Rudy D. Nebres)
Antes, uma dose de contexto pra viagem: no longo período entre 1980 e 1996, Nebres colaborou sazonalmente nos títulos da Vampirella. Com isso, acabou estabelecendo uma das únicas pontes de continuidade entre a Warren Publishing (editora das cultuadíssimas Eerie e Creepy, além da Vamp) e a Harris Publications - que adquiriu o catálogo órfão da Warren em 1983, criando assim a Harris Comics.

Vampirella foi a estrela dessa retomada e vislumbrou parte do antigo sucesso com o início dos anos 90, quando encontrou um público já, digamos, fidelizado por supergarotas curvilíneas em trajes mínimos.

O timing era perfeito. Faltou oportunismo.

Tivesse Vampirella caído nas garras fominhas da Marvel, Nebres hoje seria famoso, cheio de grana, mulheres e iates. Ou não - e ao menos seria convidado para as premieres dos filmes live-action da diva vampiresca pela Marvel Studios.


Conheci o trabalho do VAM! na Batdeira pelas suas interações e colaborações no Submundo HQ - o melhor periódico sobre o mercado nacional de quadrinhos que você vai encontrar por aí. É um mix muito bem dosado de expertise em design gráfico com exercício de estilo que faz qualquer leitor de gibis sair por aí sonhando acordado. Principalmente aqueles das "velhas escolas" - leia-se EBAL, RGE e Abril, entre outras.

Já havia visto algo nessa linha em blogs como o Super-Team Family, mas nunca com uma pegada tão abrangente e profissional. E adaptado à nossa realidade editorial, com direito a pesquisas históricas cuidadosas, do tipo que não se vê em qualquer lugar. E aí que papo vai, papo vem, surge a ideia de juntar o útil ao agradável: a Batdeira com o BZ; a Vampirella com o Nebres; e, enfim, a Vampirella do Nebres.

Os projetos da Batdeira, com as devidas exceções, são pautados em sua viabilidade real e impacto de mercado. Com as sucessivas compilações da Vampirella pela Mythos, por que não um material genuinamente clássico da sanguinária heroína? Francamente não consigo pensar em química mais natural, prontinha pra embalar e vender.

As capas e a diagramação produzidas pelo VAM!, sozinhas, já são vendedoras de alto nível.


Design, arte-finalização, títulos e diagramação por VAM! - Texto por dogg! - Arte por Nebres! - E clique para ampliar!

Fabulosas! Ou nas palavras da Vamp: Satyr and Circe!

A seleção do compilado seria moleza. Começaria com Vampirella #92-#95 (Warren, 1980-1981), da série clássica...


...e seguiria com a fase mais recente - Vengeance of Vampirella ½ (Harris, 1994) e Vampirella Strikes #4, #5 e #7 (Harris, 1996), já incluindo o crossover/quebra com Eudaemon, o Etrigan da Dark Horse.


Tentador como um pescocinho indefeso diante de uma vampira faminta.

Nos extras - é claro que tem que ter extras! - nada melhor que uma galeria de pinups e sketches da morceguinha (ou seria Coelhinha®?) escolhida a dedo - mas gentilmente - dos volumes Vampirella Pin-Up Special 1995 (Harris, 1995) e The Art of Vampirella (Dynamite, 2010).








Depois dessa dá até pra sonhar com aquele longa da Vamp pela Hammer Films (!) que nunca saiu do papel.

Tem jeito aí, VAM!?

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Curta Jonze

Sem dúvida nenhuma, Mourir Auprès de Toi - ou To Die by Your Side (2011) - de Olympia Le Tan, Spike Jonze e Simon Cahn é o curta mais evocativo, espirituoso e fofo que verei essa semana.


Spike Jonze é uma figura. Ao mesmo tempo que parece o cara mais underground do mainstream, não se rende nem a um, nem ao outro. Sua carreira de ator, produtor, roteirista e, principalmente, diretor é tão errática quanto prolífica. Mas esse free spirit todo também traz lá seus custos - quando foi a última vez que seu nome foi alçado às alturas? Ela, de 2013?

Não que ele precise. Pra mim, um sujeito que tem no currículo a direção de Quero Ser John Malkovich e Adaptação tem crédito vitalício na praça.

Isso pra não falar de todos aqueles videoclipes bacanudos. MTV da melhor safra.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

The Duel After


E falando em 2001: Uma Odisséia no Espaço, quando molequinho esse era tradicionalmente o primeiro filme que eu assistia no ano. Na madrugada de réveillon, todos os canais saíam do ar, exceto a Globo, que exibia 2001 após a Missa do Galo, quase ao alvorecer do dia. Claro... "assistia" é só força de expressão: após alguns minutos eu dormia como se não houvesse amanhã. Nem a macacada quebrando ossos ao som de Strauss me mantinha acordado.

Conforme fui envelhecendo, fui tomando jeito - alcancei o espaço e aos poucos (bem aos poucos) fui me aproximando da grandiosa sequência final em Júpiter. Finalmente! Não entendia nada daquilo, mas... finalmente!

Até hoje mantenho o ritualzinho de início de ano. Mas no lugar da obra-prima de Kubrick na Globo, o posto foi assumido - now, in D.V.D. - por Encurralado, o famoso Duel (1971) de Steven Spielberg. Esse foi o primeiro longa do cineasta, embora originalmente não tão longo para o cinema (74 min.) e produzido para um programa semanal do canal ABC.

Durante muito tempo, Encurralado foi o filme que inaugurou minha grade anual da 7ª Arte. Por algum motivo, o ano não começava pra mim antes de revisitar a saga de um inofensivo motorista (Dennis Weaver) sendo caçado por um assustador caminhão-tanque ao longo de uma highway no deserto de Mojave. Mas já há uma trinca de anos que o debut Spielberguiano tem dividido a telinha com outro telefilme. E produzido pelo mesmo canal.

Em novembro de 1983, a comportada e superfamília ABC resolveu aterrorizar o público americano - e o resto do planeta - com a exibição de O Dia Seguinte (The Day After). O filme era a dramatização do medo mais recorrente na época: uma guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética. O momento em que os mísseis são disparados dos silos nas bucólicas paisagens do Kansas e os efeitos old school misturando montagens e cenas de arquivo reais são arrepiantes. E os espólios do conflito fazem os sobreviventes invejarem quem morreu nos ataques.

Ainda hoje o filme traz uma carga deprê incrível. Especialmente para aqueles que se lembram daquela versão de mundo com duas Alemanhas. Isso graças ao olhar clínico do diretor Nicholas Meyer no elenco estelar - todos francamente engajados a fazer do filme um manifesto desesperado, mas sem panfletarismo: apenas se valendo dos apectos mais pungentes que uma grande atuação pode alcançar.

Nunca vi o Steve Guttenberg tão triste e miserável num filme. Difícil não ser impactado pela cena em que uma mãe (Bibi Besch) se recusa a aceitar que as bombas estão vindo e insiste em arrumar o quarto dos filhos. Ou acompanhar a lenta derrocada moral e psicológica de um médico veterano interpretado magnificamente pelo saudoso Jason Robards.


Além da natureza árida e da impiedosa descontrução do elemento humano, o que esses dois filmes têm em comum são seus protagonistas encarando um cenário inglório, quixotesco. São a epítome da máxima "coisas ruins também acontecem com pessoas boas".

Mas acima de tudo, são sobre pessoas que mesmo diante disso tudo, continuam seguindo, olhando para frente, para o futuro, por menos promissor que ele pareça.

Por quê? Não sei. Mas, estranhamente, é uma boa maneira de começar um ano.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

No centenário de Jack Kirby quem faz a festa é você... com os importados


Num mundo perfeito, 2017 seria comemorado pelo público e editoras nacionais de quadrinhos como se fosse o aniversário de alguma grande cidade ou de algum santo padroeiro. Como sabemos, esse foi o ano do centenário de Jacob Kurtzberg (1917-1994), também conhecido como Curt Davis, Jack Curtiss, Lance Kirby (esse é ótimo), Jack Kirby. Ou simplesmente o apelido mítico que ganhou de Stan Lee: "The King".

Do fim dos anos 1950 até o fim dos anos 1970, Kirby dominava. Atualizou a estética e a dinâmica das HQs com uma fúria reformista nunca vista antes - e raríssimas vezes depois. Fez a ponte entre complexidade e simplicidade, desenvolvendo um estilo próprio que o permitia produzir páginas e páginas em ritmo industrial sem oscilar na qualidade. Nunca ninguém produziu tanto em tão pouco tempo quanto Kirby. Era praticamente um Jimmy Page dos gibis. Seu legado para as artes e para a indústria é incomparável, exercendo reflexos vívidos até hoje.

Lá fora, a artilharia Kirbyana foi incessante - não apenas neste ano comemorativo, mas nas últimas décadas. Lançamentos a todo vapor, nada sai de catálogo e a variedade de opções é impressionante. Mesmo.

Apesar disso, não é bem um cenário de reconhecimento que se vê por estas bandas atualmente, a começar por uma boa parcela dos fanboys. Já li cada bobagem sobre a arte de Kirby e ignorância sobre o contexto da época que hoje desconfio que aquelas famosas ponderações de Umberto Eco eram sobre alguns leitores de HQs. Como bem resumiu o Daniel Lopes, do Pipoca & Nanquim: "tolos".

E não ficou muito melhor com o tributo magrinho que a Panini reservou para o ano do centenário com os dois volumes de Lendas do Universo DC: Super Powers, num equívoco seletivo de dar gosto. É material inédito por aqui, certo, mas nada representativo do que foi o Rei no auge. Isso era pra ser lançado bem depois de Quarto Mundo, Kamandi, OMAC e Etrigan, o Demônio, só pra ficar na jurisdição DC. Ou, no mínimo, pra anteceder metade dessas sagas ainda em 2017.

Vão-se os centenários, ficam os importados. Se descaso é mato nessa terra, sejamos os capinadores.



Machine Man - The Complete Collection foi irresistível. Curto demais a versão 1.0 do X-51/Aaron Stack/Homem-Máquina - e de menos o upgrade Inspector Gadget engraçadinho que ele recebeu nos anos recentes. Então foi uma rara oportunidade de fechar tudo que achei legal de um personagem numa tacada só. Ou melhor... em duas.

O calhamaço é graúdo: além das participações no título do Hulk e da Marvel Comics Presents, as 440 páginas também trazem todas as 19 edições da série original do Machine - ou "Mister Machine", como era chamado em sua estreia oficial na quadrinhização do Rei para o clássico 2001: Uma Odisséia no Espaço, não compilada aqui por conta dos direitos que mofam ad eternum nos cofres da MGM.

E tudo bem que não se trata de um material 100% Kirby. Afinal, ele divide metade da série solo com outro criador peso-pesado - ninguém menos que o genial e genioso Steve Ditko. Excelsior!

Nada mal como uma (Almost) Complete Collection.



The Demon by Jack Kirby é uma que entrou no meu target desde o início da pré-venda. Isso foi lá pelo ano passado, mas pareceu uma eternidade.

Uma baixa terrível, literalmente, de última hora: a substituição da capa original da The Demon #1 (set/1972), clássica e espetaculosa, por uma arte em detalhe que mais parece um flash do Etrigan com enquadramento ruim. Que o autor dessa ideia cumpra uma pena exemplar nos círculos inferiores.

E já que toquei no assunto, a Amazon anda meio salafrária ultimamente. Alguém mais encomendou aquele Cavaleiro das Trevas anunciado com capa prateada e recebeu a versão anterior, com as silhuetas do Batman e do Super?

O TPzão coleta as dezesseis edições originais de The Demon, cuja publicação atropelou os planos ambiciosos do Rei para seu xodó, a megassaga Quarto Mundo - cancelada após o sucesso nas vendas do diabão amarelo. O que, imagino, deve ter deixado Seu Kirby muito enjuriado pela sua demoníaca criação.

Deve ser a maldição do gênio da raça. Fazer o quê, se até pra chupinhar beber em fontes alheias, o Rei dava um show de preciosismo nas referências?

Seja como for, o capeta rimão aportou direto no quadrante 666 da coleção.


Há que se fazer a menção honrosa aos divertidíssimos The Demon vol. 1: Hell's Hitman e The Demon vol. 2: The Longest Day, com a dobradinha Garth Ennis/John McCrea imersa em insanidade e anarquia, e para The Demon: From the Darkness, de Matt Wagner e Art Nichols - provavelmente a melhor história do Etrigan já escrita.

Em outras palavras, o Demônio do Rei Kirby está em excelentes más companhias.


E o Máquina também.